Crise de saúde mental: o que redes sociais e inteligência artificial têm a ver com isso?

Dr. Claudio JerônimoPsiquiatra especialista em transtornos mentais

Vivemos uma era de transformações rápidas e profundas. A tecnologia encurtou distâncias, mas também distanciou pessoas. Já não sentamos mais para conversar com calma, como antes, passamos mais tempo nas redes sociais do que com nossos próprios familiares. As conexões virtuais se multiplicaram, enquanto os vínculos afetivos reais para muitos se enfraqueceram.

Nesse cenário, a saúde mental tem sido duramente impactada. Um relatório internacional divulgado recentemente (11 de junho de 2025) pelo grupo KidsRights, em parceria com a Universidade Erasmus de Roterdã, acendeu um alerta global: a crise de saúde mental entre crianças e adolescentes atingiu um ponto crítico, impulsionada pela expansão descontrolada das redes sociais.

O estudo revela que uma em cada sete crianças e adolescentes, entre 10 e 19 anos, sofre de algum tipo de problema de saúde mental, e aponta uma correlação preocupante entre o uso problemático das redes e o aumento do sofrimento psíquico, incluindo tentativas de suicídio.

O relatório destaca que o consumo excessivo de conteúdo na internet vem comprometendo a vida cotidiana de muitos jovens e alerta que o modelo atual das plataformas prioriza o engajamento em detrimento da segurança emocional. Embora medidas extremas, como a proibição total do acesso a redes por menores de 16 anos, tenham sido adotadas em alguns países, a organização pondera que soluções rígidas demais podem violar direitos fundamentais, como o acesso à informação.

 

A saída, segundo o documento, é uma abordagem global e equilibrada, que promova ambientes digitais seguros e educativos.

IA na terapia: avanço tecnológico ou risco à saúde mental?
Paralelamente, cresce o uso da Inteligência Artificial (IA) para funções sensíveis, como a terapia. Uma pesquisa realizada em 2025 e publicada pela Harvard Business Review revelou que o uso da IA como ferramenta terapêutica e de companhia emocional é uma das principais aplicações no cotidiano das pessoas.

O dado chama atenção, especialmente diante do crescente interesse por alternativas digitais de suporte emocional. Muitos participantes relataram que a IA tem contribuído para lidar com o luto e traumas emocionais.

Três vantagens frequentemente mencionadas são:

– A disponibilidade 24 horas por dia, sete dias por semana;

– O baixo custo, ou até mesmo gratuidade em algumas plataformas;

– E a ausência de julgamento, já que não há interação com outro ser humano.

Embora a IA seja uma ferramenta poderosa e com grande potencial de apoio, seu uso em terapias levanta questionamentos importantes sobre os limites dessa tecnologia. A substituição de vínculos humanos e do acompanhamento profissional qualificado representa um risco real para a saúde mental.

Reduzir a terapia a um bate-papo com uma máquina é negligenciar a complexidade da mente humana. Psicólogos e psiquiatras possuem formação, experiência clínica e sensibilidade emocional que a IA não é capaz de replicar. O cuidado humano, a escuta empática e a tomada de decisão ética são insubstituíveis.

Outro risco relevante surge em casos de pessoas fragilizadas ou com risco de suicídio. A IA pode não identificar sinais sutis de agravamento do sofrimento psíquico, como mudanças no tom de voz, alterações na expressão emocional ou ambivalências nas falas. A ausência de empatia verdadeira e de sensibilidade clínica pode resultar na falta de intervenções adequadas em momentos críticos, colocando a vida da pessoa em risco.

Apenas profissionais capacitados são capazes de realizar uma escuta qualificada, avaliar o risco de forma precisa e oferecer o suporte necessário, como manejo de crise e encaminhamento para atendimento especializado.

Vida real além das telas: o equilíbrio necessário
Estamos cercados por TikTok, Instagram, Facebook, Inteligência Artificial, YouTube… O problema não é usar, mas saber usar sem se tornar dependente do celular ou das redes sociais. É importante curtir a vida fora das telas, participar de eventos, ir a festas, assistir a jogos de futebol, estar com amigos.

Saúde mental não é frescura: é cuidado, é prioridade
Cuidar da mente é tão essencial quanto cuidar do corpo. Dormir bem, alimentar-se com qualidade, se relacionar com pessoas de confiança e ter momentos de pausa são atitudes que fortalecem a saúde mental.

É urgente resgatar o valor do diálogo, da escuta verdadeira, dos laços familiares e da busca por ajuda profissional qualificada.

 

A saúde mental precisa de conexão real, de presença, de equilíbrio entre o digital e o mundo ao nosso redor.

E se precisar de ajuda, conte com o psiquiatra Dr. Cláudio Jerônimo.

Fontes:

https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2025/06/redes-sociais-alimentam-problemas-de-saude-mental-em-criancas-e-adolescentes-diz-estudo.shtml

https://hbr.org/2025/04/how-people-are-really-using-gen-ai-in-2025

 

Texto escrito por Adriana Moraes – Psicóloga especialista em Saúde Mental e Dependência Química