Gatilhos, fissura e dependência química: Por que a recaída pode acontecer mesmo após anos de abstinência?

Dr. Claudio JerônimoPsiquiatra especialista em transtornos mentais

Gatilhos, fissura e dependência química: Por que a recaída pode acontecer mesmo após anos de abstinência?

João (nome fictício) costumava usar drogas sempre no mesmo local, naquela parte da cidade que acabou se tornando cenário fixo do consumo. Depois de um período difícil, decidiu buscar tratamento, dedicou-se à recuperação e, para fortalecer o processo, escolheu ir embora dali e recomeçar em outra cidade. Conseguiu se manter bem por cinco anos, reconstruindo a rotina e a própria vida.

Mas, ao retornar para visitar a antiga cidade, bastou passar pelo local onde costumava usar que algo foi acionado quase de forma automática, como se o corpo tivesse guardado aquela memória. A vontade surgiu intensa e ele acabou recaindo. O ambiente funcionou como um gatilho, despertando a fissura mesmo após anos de abstinência.
A história desse rapaz, que ficou cinco anos bem e recaiu apenas ao passar pelo antigo local de uso, não é incomum na dependência química. Para entender por que isso acontece, é fundamental compreender três conceitos centrais: gatilho, fissura e dependência.

Como a dependência química altera o cérebro?

A dependência química é uma condição crônica que envolve alterações no funcionamento do cérebro, especialmente no sistema de recompensa, relacionado à motivação e ao aprendizado. Substâncias psicoativas provocam liberação intensa de dopamina, neurotransmissor ligado à sensação de prazer e reforço. Com o uso repetido, o cérebro aprende que aquela substância é prioridade. Aos poucos, ocorre tolerância (necessidade de doses maiores) e perda de controle sobre o consumo. A droga deixa de ser apenas uma busca por prazer e passa a ser uma necessidade para aliviar desconfortos físicos e emocionais.

Nesse contexto surgem os gatilhos, que são estímulos internos ou externos que o cérebro associa ao uso da substância. Eles podem ser lugares, pessoas, cheiros, músicas, horários do dia, estados emocionais, como ansiedade, tristeza ou euforia, ou até pensamentos específicos. O cérebro dependente cria conexões muito fortes entre a droga e o ambiente em que ela era utilizada. Assim, mesmo após anos de abstinência, ao entrar em contato com um desses estímulos, o circuito neural previamente condicionado pode ser reativado rapidamente.

Gatilho e fissura: por que a recaída pode acontecer?

A recaída geralmente começa com um gatilho. Esse estímulo reativa as memórias associadas ao consumo e pode desencadear uma resposta automática do cérebro.

É a partir desse gatilho que pode surgir a fissura, também chamada de craving. A fissura é caracterizada por um desejo intenso e urgente de consumir a substância psicoativa, acompanhado da expectativa de reviver os efeitos que ela produz. Costuma vir associada a mudanças no humor, no comportamento e nos pensamentos, podendo gerar inquietação, impulsividade e dificuldade de concentração.

A fissura pode durar minutos ou horas e varia em intensidade, mas, quando não é reconhecida e manejada, aumenta consideravelmente o risco de recaída.

Isso se torna ainda mais evidente em substâncias como o crack, que produz um efeito rápido, intenso e de curta duração. O pico de prazer ocorre em segundos e desaparece rapidamente, o que favorece o uso repetido em curto intervalo de tempo. Esse padrão reforça de forma muito potente a associação entre ambiente, sensação e recompensa. O cérebro passa a registrar não apenas o efeito da droga, mas também o local, as pessoas e o contexto em que ela foi consumida. Por isso, anos depois, apenas passar pela rua onde o uso acontecia pode ser suficiente para reativar aquele circuito neural.

Do ponto de vista neurobiológico, estamos falando de memória associativa. O cérebro aprende por repetição e emoção. Experiências intensas, principalmente aquelas que envolvem grande liberação de dopamina, são registradas com mais força. Não é apenas uma lembrança consciente, é uma memória corporal e emocional. O indivíduo pode até saber racionalmente que não quer usar, mas o corpo reage antes, gerando fissura.

Tratamento e recuperação na dependência química

Embora a dependência química seja uma condição crônica, ela pode ser tratada e controlada com acompanhamento adequado. Psicoterapia, grupos de apoio, acompanhamento médico e, em alguns casos, medicação ajudam a reduzir fissuras, fortalecer o autocontrole e reconstruir novos circuitos de recompensa mais saudáveis. Entender o que são gatilhos e fissuras não é apenas informação técnica: é uma ferramenta de prevenção de recaídas e de cuidado contínuo com a saúde mental.

A recuperação não é apenas parar de usar a substância, mas reaprender a sentir prazer, lidar com frustrações e construir novas associações no cérebro. Com tempo, suporte adequado e estratégias consistentes, é possível enfraquecer antigos circuitos ligados ao uso e fortalecer caminhos mais saudáveis.

Se você ou um familiar enfrenta dificuldades relacionadas à dependência química, buscar ajuda especializada pode ser um passo fundamental para interromper o ciclo da recaída e fortalecer a recuperação.

Se precisar de ajuda, entre em contato com o psiquiatra Dr. Cláudio Jerônimo, que poderá orientar e indicar o tratamento mais adequado para cada caso.

Texto escrito por Adriana Moraes – Psicóloga especialista em Saúde Mental e Dependência Química

Fonte:
Livro: O tratamento do usuário de crack – Organizadores: Marcelo Ribeiro, Ronaldo Laranjeira – Porto Alegre, Artmed, 2012.